Malditos feriados
Eu adoro feriados e feriadões – no Brasil. A única mudança na vida é que você não pode trabalhar no local do seu emprego. Compras, alguns serviços, diversão, restaurantes, está tudo lá. Como um efeito colateral do estado de bem estar social, aqui quase ninguém trabalha em fins de semana ou feriados. Todas as lojas fecham, até restaurantes. Os ônibus têm horários especiais e alguns roteiros são alterados. Por exemplo, hoje é segunda, véspera do 17 de maio, o dia da independência. O dia foi enforcado, mas não extra oficialmente. Saí para ir à Universidade e não tinha ônibus, nenhum ônibus (talvez mais tarde), os supermercados estavam fechados, as ruas vazias. Ou seja, três dias de supermercados fechados, domingo, segunda enforcada e terça (feriado da Independência). Desastre, pelo menos para quem está acostumado ao Brasil. Mesmo antes dessa moda de aberto 24 horas, nunca se passava mais de 24 horas em feriado total. Os noruegueses passeiam, viajam para a praia, para a montanha, para os parentes, para o exterior, usando todos os meios de transporte imagináveis. Feriados ocupados com lazer ativo são a regra, ao contrário daqueles nossos fins de semana preguiçosos. Se todo mundo tem o seu bom emprego, pra que se matar trabalhando nos fins de semana? As lojas nas ruas funcionam de 10 às 4 da tarde, e os shoppings até às oito. Não dá tempo ficar batendo perna em lojas depois do trabalho, porque os horários não permitem.
O desfile do povo
Depois do desfile das crianças, fui a um festival internacional, numa grande parque em Stavanger. Mais como uma feira das nações, organizada pelos imigrantes. Apresentações de música e dança de cada país e barracas de comidas típicas. Localizei curdos, vietnamitas, filipinos, tailandeses, chilenos e colombianos, e mais uma frente de libertação de Acech Sumatra. Uma família com aparência árabe me desalojou do gramado onde eu estava sentada, a boa mulher estendeu o tapete oriental por cima, por cima mesmo, dos meus pés. Passei-lhe um olhar mortífero e retirei-me, sem verificar se o olhar realmente funcionou. Mais tarde, fui ao centro da cidade, onde havia a apresentação da Osquestra de Jazz de Stavanger. Muito boa. Finalmente, chegou a hora do desfile popular (perdi o dos russes, quem quizer saber o que é deve consultar o blog de Kelly, endereço ao lado). Reunidos em desfile, vemos a sociedade civil, em associações, clubes, instituições públicas e privadas. Dezenas de bandas de música, inclusive a da Polícia e uma banda de gaitas escocesa), um espetáculo realmente notável, aqueles homens circunspectos usando saiotes, meias grossas na canela e paletós, mais os gorros altos de fibra. Escolas de esportes, dezenas de futebol e todos os esportes imagináveis: tênis, handball, badminton, hóquei, basquete, ginástica, clubes de remo, vela, karatê, juijitsu, todoas essas lutas orientais, academias de dança, Cruz Vermelha, bombeiros, etc. A maioria dessas associações envolve crianças e jovens, como aprendizes e o desfile quase sempre envolveu alguma forma de apresentação, demonstração. Foi realmente impressionante ver quanta gente está ocupada em outras coisas que não trabalho e lazer consumo.
Mas há uma nota dissonante, pelo menos aos olhos de um brasileiro. Os políticos não desfilam, nem partidos, nem movimentos de protestos de nenhum tipo, nem minorias barulhentas como os gays, nem campanhas para combater qualquer coisa errada. Comentei o assunto hoje com Kelly e ela me diz que os noruegueses não gostam de falar de coisas negativas ou tristes, preferem por uma pedra em cima e seguir adiante. Conversando com uma colega aqui da Universidade, ela confirma essa percepção; dá o exemplo do tema da morte, que é meio como um tabu, do qual as crianças são quase sempre protegidas. Não sei o que dizer sobre isso. O desfile é uma alegria só, não temos que ficar com o coração apertado nem engolir em seco. Mas será que isso não ilude as pessoas? Claro que há coisas ruins na Noruega, mesmo agora. Conheci uma assistente social que trabalha com viciados em drogas pesadas. Pelo visto ela tem muitos “clientes” aqui em Stavanger e eu mesma vi gente drogada em Oslo. Minha colega disse que muitos europeus vêem a Noruega como um lugar perfeito, aquele melhor doce na última prateleira que a criança não consegue alcançar. Concordamos que há um certo estado de inocência neste mundo, como no Jardim do Éden, onde se sabe que mora a serpente. Mas se você não presta muito atenção e tem uma sorte mediana, é muito bom viver nesse paraíso.17 de maio na Noruega
Comunidade de falantes de português: diversão e arte
Numa quinta à tarde encontrei no centro da cidade um brasileiro que já tinha conhecido na cerimônia da Universidade. Ele estava junto a grupo, liderado por um padre colombiano, fazendo propaganda de um concerto que vai ocorrer aqui em Stavanger brevemente, pela paz na Colômbia. Havia um finlandês tocando música brasileira, muito legal. O rapaz me convidou para ir na loja de uma brasileira em Stavanger, loja recém aberta. Bom, fui. A loja vende uma miscelânea de coisinhas: camisetas, bijouteria, sandálias havaianas, essas coisas. Também havia uma exposição de trabalhos de fotografia (do brasileiro). Tudo a preço bem norueguês, diga-se de passagem, como não poderia deixar de ser. Ficamos por ali conversando e daí a pouco chega a mulher do brasileiro, que é norueguesa mas fala um português perfeito. Mais 15 minutos, chega outra norueguesa, que também tem um namorado brasileiro e também fala português. Lá ficamos praticando a língua pátria, na maior animação. Sei que o casal brasileiro/norueguesa vai voltar para o Brasil brevemente, para tentar a sorte por lá, fazendo o caminho inverso. O rapaz sente-me insatisfeito com o tipo de emprego que consegue aqui na Noruega. Eu até perguntei “Vocês têm certeza?” e ela me demonstrou, usando a boa lógica norueguesa, que estava tudo planejado, bem pensando, riscos e benefícios calculados, havendo uma boa chance de dar certo e, afinal, sempre podem voltar, se necessário. Conversa vai, conversa vem, decidimos fazer uma noite de comida brasileira, para a qual eu ofereci meus préstimos. Pronto, mais um vatapá não Noruega! Mais tarde juntou-se um jamaicano, mas este só estava aprendendo a falar português, já que trabalha no petróleo e está viajando para o Brasil. Nesse dia conheci também um peruano, casado com uma professora da Universidade e que também foi “bater o ponto” na loja da brasileira. Já se vê, assim é que se formam as comunidades de imigrantes, de repente estavam juntas umas seis sete pessoas, falando português no maior conforto, conferindo experiências. A dona da loja é loura e de olhos azuis, chegou muito jovem à Noruega e está aqui há 17 anos, foi casada com um norueguês, tem um filho; era de se esperar uma integração maior com os noruegueses, mas ela me disse (mais uma) que o povo é muito fechado, muito frio; entre todos os amigos que ela tem, apenas uma amiga é norueguesa.


"Sou psicóloga e trabalho como professora e pesquisadora, na Universidade
Federal da Bahia. Estive na Noruega por um ano, num Programa de
Pós-Doutorado. Neste blog eu contava a parte não acadêmica dessa
experiência, mantendo-me em contato com família e amigos no Brasil e também em outros lugares do mundo. Escrever sobre o que eu estava vivendo, e conversar sobre isso com amigos, alguns dos quais eu nunca vi pessoalmente, me ajudava a pensar e aproveitar melhor esse tempo de renovação". E-mail: eulina@ufba.br
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