Experiências singulares
Num tempo/espaço que ficou pra trás neste blog (ou seria em O Jacu e a Noruega, o I?) eu contei uma lembrança de infância que me persegue, um momento de beleza, de sentimento de estar vivendo uma coisa singular, uma memória profundamente nostálgica e persistente. Agora estou lendo o livro de Oliver Sacks (Um antropólogo em Marte) e li sobre o caso de um pintor que, após uma doença desconhecida, acorda um dia com lembranças vívidas de sua cidade natal. Ele começa a pintar paisagens da sua cidade (Pontito, na Toscana, Itália) e envereda por uma atividade frenética de representação pictórica de suas lembranças da cidade. Ele vive em Los Angeles e já tinha pintado, àquela altura, cerca de 1500 quadros, todos tendo como único tema Pontito. Que leitura mais estimulante! Não esclarecedora, necessariamente. Não se sabe qual foi a doença e o fenômeno tem sido descrito na literatura especializada, mas não explicado, mas, em todo caso, fiquei muito impressionada, especialmente porque a qualidade da vivência, da memória que é evocada, parece ter repercussões sobre a identidade do indivíduo e, principalmente, porque muitos escritores que eu gosto parecem orientados pela nostalgia. Para mim, o sentimento mais vívido, mais transcendente, tem a ver com nostalgia, com a memória de uma experiência, de algo que me tira do presente. Experimentei essa sensação quando vi o vídeo Outros doces bárbaros, na hora em que Gil canta a música: "Será que ainda temos o que fazer na cidade... em nossos corações ainda resta um quê de ansiedade... apesar de ter sido um grande prazer .... em nossos corações já reside um quê de saudade". Dá pra quase chorar, senti essas frases em cada centímetro do coração. Realmente, o estilo de Oliver Sacks, sua ciência, seu texto são sempre cheios de novas visões sobre a psicologia humana. Recomendo todos.
- Postado por: Eulina às 20h45
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